segunda-feira, 8 de março de 2010

ENTREVISTA: Lauro Nightrealm (Incinerad)

“Não toco em banda por que sou músico, toco por atitude!”

Ele capitaneia a única banda de Death Metal da cidade, o Incinerad! Divide muitas opiniões na cena, mas, como poderá ser comprovado na entrevista abaixo, não muda sua autenticidade um milímetro sequer e, mesmo com pouco tempo na cena, já tocou (e toca) em bandas de renome no Underground paulista, como Bestial Atrocity e Queiron, além do Incinerad! No próximo 16 de abril, com suas duas bandas, ele vai abrir o show para a lenda do Black Metal Marduk (SUE), acrescentando mais um “open act” de peso em seu currículo, que já conta com Obituary (EUA), Belphegor (AUS), Master (EUA) e Grave (SUE). Pode parecer pouco, mas não conheço muitos outros bangers na cidade que já tenham um portfólio desses. Com vocês, Lauro Nightrealm!

Lauro, você, apesar de ser bem conhecido na cena local, é relativamente novo. Poderia nos contar um pouco de você e de sua trajetória com bandas desde que começou tocar? Também cite suas principais influências.

Bom, acho que o grande fator que contribuiu para isso é simplesmente a minha paixão pelo Metal Nacional. No início eu buscava mais discos e K7s de bandas nacionais e ficava horas escutando. A partir de então comecei a ir em shows na região e fora do Estado, querendo ver pessoalmente a atuação destas bandas que eu ficava escutando em casa. A partir daí acabei criando um laço de amizade (eu e as bandas) e me correspondendo com elas. Ao contrário do que alguns dizem, isso não é “lamber o saco” da banda, e sim uma verdadeira atitude de apoio e respeito ao trabalho que elas fazem. Foi então que montei minha primeira banda, entre 2002 e 2003, chamada Arphelyon. Era uma banda de Heavy Metal, que inicialmente tocava alguns covers como Dio, Iron Maiden, Helloween, Gammaray etc. e também com algumas composições de nossa autoria, para acarretar em um trabalho mais profissional. Esta banda durou um ano e depois se extinguiu por diferenças musicais de todos os integrantes. Meses depois resolvemos voltar com a mesma, porém, tendo o mesmo fim ainda mais prematuro. Minhas principais influências são: Black Metal, Death Metal, Thrash Metal, Heavy Metal e Musica Clássica.

Como foi montado o Incinerad? Aliás, o que quer dizer (não só em termos de tradução) e o que simboliza o nome da banda?

Em 2006, eu estava à procura de verdadeiros guerreiros para iniciar um projeto com uma banda de Death/Black Metal. Foi quando, em uma roda de amigos, soltei tal assunto e o Dijalma David, que estava nesta me mesma roda, se prontificou a tocar baixo. Como o Dijalma era guitarrista, pensei comigo e disse a ele para não trocar sua guitarra num baixo, o que não adiantou. No dia seguinte, ele foi pegar seu baixo, reforçando ainda mais a idealização do projeto. Bem, agora faltava uma peça de suma importância para a conclusão definitiva de uma suposta banda: um baterista! Ao conversar com um grande irmão de anos chamado Flávio (atual baixista do Incinerad), acompanhado de uma amiga (cujo nome não me lembro agora), comentei que estava à procura de um batera. A mesma me disse que tinha um amigo que estudava com ela que tocava bateria e era um grande apreciador da musica extrema, chamado Emanuel. Peguei o telefone dele com essa garota, liguei na seqüência e marcamos de nos falar pessoalmente no dia seguinte. Ao conhecê-lo, Emanuel me convidou em ir até sua casa para vê-lo tocar. Fiquei completamente surpreendido com a tamanha velocidade e precisão que ele tinha, típico e verdadeiro baterista de Death Metal, além de ver que ele era bem novo, pois tinha somente 16 anos na época, e já tinha grandes influências musicais no seguimento extremo como Krisiun, Cannibal Corpse, Carcass etc. Já com todas as peças completas, iniciamos nossos primeiros ensaios. Como não tínhamos local próprio para ensaiar, duas grandes pessoas que nos deram um imenso suporte. Um foi o Tiago e outro grande irmão, que já não está mais entre nós, o Marcão, ambos do Kranio. Começamos a ensaiar na casa do Tiago e foi lá que saiu nossas primeiras composições e nos vimos como uma banda de verdade, pois vi que tínhamos um grande potencial. Agora só faltava um nome para a banda. “Mas qual?” Queríamos um nome forte e que simbolizasse o caos, a destruição e derivados. Como tínhamos uma cabeça um tanto que conservadora em relação ao Metal, queríamos que a chama do antigo Metal queimasse os novos tempos, desmistificasse a raiz e desfragmentasse esta essência. Com isso surgiu o nome “INCINERAD” que significa (obviamente) incinerado, queimado, carbonizado etc. A simbologia para nós é essa, não só o nome, mas sim a banda como um todo, pois ser uma banda de verdade não é apenas empunhar um instrumento e ser um pseudo-filósofo. Ser uma banda de verdade é ter atitude. E isso nós temos!!!

Agora que você entrou no Queiron, sua agenda deve ter ficado apertada. Como fica pro Incinerad agora? Qual das bandas é sua prioridade e quais são os planos futuros pro Incinerad?


Isso dá pra ser maleável. Pois ensaio em Capivari com o Queiron, aos sábados, e aos domingos, com o Incinerad. Até então, minha atuação no Queiron não está prejudicando o Incinerad, pois todos nós somos amigos já há algum tempo e nos entendemos bem neste ponto. Então, não digo que tenho uma prioridade por tal banda, mas sim uma prioridade por necessidade. Nós do Incinerad pretendemos estar estourando tímpanos e proliferando o terror sonoro, como toda banda extrema deve ser!

Como foi sua passagem pelo Bestial Atrocity? O Baron é um cara absolutamente conhecido e respeitado na cena Death do Brasil...

Sim, o Baron Von é uma pessoa bem influente no cenário nacional. Não por ser o líder do Bestial Atrocity, mas sim por ser um grande guerreiro que luta por nosso cenário metálico. Eu o conheci em umas de minhas peregrinações pelos eventos mundo afora. Temos a mesma paixão pelo Metal e por nosso Underground! Foi então que, no final de 2008, ele me convidou para fazer um teste no Bestial Atrocity. Fui encarregado de tirar cinco músicas para iniciar o teste, mas fui no dia da avaliação com 15 (N. do R.: Quinze!!! Caralho!!!) sons tirados. Neste mesmo dia fui oficializado como membro efetivo da banda. Ser um Bestial Atrocity foi algo muito satisfatório para mim, pois conquistei mais aliados e grandes amizades, além de poder tocar com o Grave, da Suécia. Foi uma experiência extraordinária tocar com o Baron e o Bestial Atrocity!

Por que a banda acabou logo depois que você entrou?

Quando eu entrei, a banda já estava passando por algumas turbulências. Alguns integrantes estavam com problemas pessoais, o que fez que a banda entrasse em um estágio de “desempolgação”. Fizemos alguns bons shows e criamos algumas músicas, mas isso não segurou firmemente o desânimo. Sendo assim, todos chegaram em um consenso que o melhor a se fazer seria imortalizar o nome “Bestial Atrocity” para ser memorizado com grandes glórias e batalhas.

Como é integrar o Queiron, uma banda renomada do cenário nacional e muito conhecida?

Conheço o Queiron desde que ingressei no Metal Extremo. Conheci seus discos e os conheci pessoalmente em algum show por aí, não me lembro onde agora. Sempre que podia, eu ia prestigiar eles (como faço com várias bandas) em algum som e trocávamos idéias tomando cerveja no bar. Em agosto de 2009, o Marcelo Grous (líder da banda) me ligou relatando o que estava acontecendo com eles, necessariamente com o baixista, o Tiago Furlan, que já tinha os comunicado que não poderia mais seguir na batalha, e foi aí que o Marcelo me convidou a fazer um teste. Eles estavam vendo mais algumas pessoas para o teste e, somente no meu terceiro ensaio com a banda, todos os integrantes foram unânimes em me efetivar como membro definitivo, por ser o que mais se destacou e por possuir a mesma cabeça que todos, de acordo com eles.

Você originalmente é guitarrista. Como foi sua adaptação para o baixo, no Queiron? Ainda dá aquela travada na mão da palheta ou foi tranqüilo?

Te digo que pensava que fosse mais complicado. Demorei aí uns dois meses para me acostumar totalmente com um baixo, pois toco guitarra desde meus 15 anos. Como o Queiron possui um som mais técnico e riffs bem rápidos, isso dificultou um pouco no inicio, mas agora estou 100% adaptado com esse “novo instrumento”, já explorando ele de todas as formas possíveis.

E essas oportunidades de abrir shows de bandas gringas? Como você se sente abrindo shows para bandas que te influenciaram, como o Marduk e o Master agora? Você fica meio “tímido” e com aquele sentimento de “fã babão” quando vê os caras, ou fica de boa?

Me porto normalmente quando nos falamos (rs). Conheço grandes nomes no cenário Extremo mundial e mantemos contato com uma certa freqüência com bandas como Belphegor, Hate, Setherial, Grave, Equinoxio, Enthroned, Severe Torture, o próprio Marduk e várias outras. Recentemente tive a oportunidade de conhecer os integrantes do Master (EUA), uma das bandas de Death Metal mais antigas. Foi um prazer imenso poder conhecê-los pessoalmente, pois são grandes pessoas e verdadeiros amantes do Metal Extremo.

Vamos falar do Death Metal. Eu vejo que o público da cena Death sempre anda com o visual característico do estilo, sempre de preto, com braceletes, couro, coturno, corpse paint etc. Qual a simbologia e a importância disso? Não seria uma “moda” dentro do Rock em geral?

Acredito que não, pois se analisarmos bem, o Death Metal é um estilo que poucos gostam, falando do mundo Rock em geral. É claro que sempre tem os “oba-oba” no círculo, mas 90% deles pára de curtir, muda de estilo e/ou vira cristão. A simbologia de um visual carregado é para exaltar nossa apreciação pelas as artes obscuras que o Metal Extremo proporciona. Por isso que são para poucos e espero que continue assim, para ser bem franco, pois essa nova onda de “Metal Moderno” não está com nada, em meu ponto de vista.

Todo Deathbanger é necessariamente satanista ou anticristo? Você tem alguma religião ou segue alguma coisa nesse lado espiritual?

Esse é um assunto um tanto que delicado. Mas vamos dizer que sim: tenho um lado espiritual um tanto que exótico, trilhado pelos caminhos da mão esquerda.

Disso eu não entendo e gostaria de saber: o Death Metal e o Black Metal são “irmãos” ou são totalmente diferentes? Quais as principais características de cada um?

Sim, o Death Metal e o Black Metal são grandes irmãos! Ambos defendem uma postura contra o cristianismo e vão totalmente contra as morais cristãs. As sonoridades agressivas de ambos os estilos são justamente para exaltar nosso desprezo. O Death Metal relata isso de forma mais catastrófica e caótica. Já o Black Metal é mais na cara, com blasfêmias diretas. Estas são a principais características, mas claro, tem muito mais além disso aí.

Eu percebo que a cena do Metal Extremo, em geral, é uma das mais unidas no Brasil. É verdade isso ou também rola aquela ciumeira e competição típicas dos outros estilos?

Entre os verdadeiros guerreiros nossa irmandade é única e sólida. Formamos a Extrema Aliança. Mas sempre tem aqueles que gostam de falar mais que a boca, por ciúmes ou inveja. Particularmente, eu não dou a mínima para esse tipo de pessoa, pois “a inveja é uma forma berrante de homenagear a superioridade alheia.”

Sou um apreciador da Língua Inglesa e fico muito curioso para saber por que diabos vocês sempre trocam a letra “U” pelo “V” nos nomes das músicas e dos discos? (rs)

No latim arcaico, os cristãos utilizavam o “V” no lugar do “U” nos testamentos bíblicos e sacros da época. Esse tipo de escrita era a mais utilizada por eles. Então, fazer a substituição destas letras, em nosso contexto, é considerado uma sátira, uma blasfêmia aos olhos cristãos.


Outra coisa que eu admiro absurdamente na cena Death Metal é a mulherada! Meu, como tem mulher gata no meio de vocês, hein? Basta olhar o seu perfil no MySpace pra comprovar... (rs)

(Risos) Sim, é verdade. Antigamente não tínhamos muitas dessas lindas mulheres em nosso círculo. Hoje em dia até me espanto como as mulheres estão gostando com extremo fervor das artes relacionadas ao Metal Extremo. Em relação ao meu MySpace, aqueles lindas damas que estão em minha pagina inicial, são pessoas que tenho uma ótima relação e as considero verdadeiras irmãs. Mas confesso que o índice de presença feminina em nosso cenário aumentou bem.

Os timbres de guitarras no Death Metal são bem particulares e distintos. Pra mim o pontapé inicial disso foi o “Eternal Devastation”, do Destruction, que nem Death Metal é... Qual é o equipamento que você usa e qual a regulagem no ampli e no pedal para conseguir a verdadeira distorção Death Metal?

Acho que essa parte de timbre é uma coisa bem particular de cada um. Cada um gosta de um determinado timbre que se adapta melhor às propostas sonoras de cada banda. Eu atualmente uso uma guitarra “Schecter Demon 7FR” de sete cordas, um pedal “Hell Babe”, da Behringer, um pedal “V-Tone”, da Behringer, uma pedaleira “Zoom 505II” para efeitos e ajudar na equalização, um pedal “Noise Supressor”, da Behringer, para tirar saturação, e um pedal Maximazer para masterizar e definir o som de minha guitarra. A regulagem do ampli fica com todos botões no meio, pois o grande segredo está na regulagem nos pedais, onde tenho uma para cada ambiente que vou tocar.

Você estuda ou pratica guitarra hoje em dia? Pergunto isso porque pra tocar Death Metal na velocidade que ele exige devem ser necessários muitos anos de treino...

Para ser bem sincero, e todos que me conhecem sabem bem disso, eu nunca fiz aula de guitarra em minha vida! Fui autodidata neste quesito de guitarra (rs)! Mas sempre fui uma pessoa interessada em aprender algumas técnicas, além de eu amar tocar guitarra. Mas cada um tem sua pegada, seu estilo e sua identidade para tocar. Não sou nenhum músico e nem pretendo ser para falar a verdade. Não toco em banda por que sou músico, toco por atitude!!!

Todo mundo curte alguma banda ou artista que não tem nada a ver com Metal e com o Rock em geral. Quais são as bandas/artistas que você fica com vergonha de admitir que curte? Não vale falar de música clássica! (rs)

(Risos) Com certeza gosto de estilos que não possuem relação com o Metal de certa forma! Além de gostar da Música Clássica, gosto também de alguns Hardcores, Tears For Fears, Michael Jackson, Frank Sinatra, Michael McDonald (1982), Teddy Pendergrass (1977), Howad Shore, música ambiente folclórica Egípcia, Celta, Maia e Grega, música ritualística como Coph Nia, Elend, e Jacula. Não tenho nenhuma vergonha em dizer de gosto de outros estilos musicais. Muito pelo contrário! Esses gêneros citados acima fazem parte de mim também. Mas sei que sou um amante fervoroso do Metal e isso pra mim já basta.

É isso! Obrigado pela entrevista! Gostaria que você deixasse um recado para os leitores do IRZ.

Leo, muito obrigado pelo espaço concedido! Espero que o Indaiá Rock Zine continue sempre em ascensão! Somos poucos, mas sonos unidos, a verdadeira Aliança Extrema!!!

SVPREME SANCTVS METAL HEX




Links relacionados:

- Lauro Nightrealm MySpace
- Incinerad MySpace
- Queiron MySpace
- Bestial Atrocity MySpace

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

A festa dos mortos-vivos

Concordo com cada palavra deste texto:

Por Regis Tadeu, colunista do Yahoo! Brasil

Para esta semana, o pessoal do Yahoo!pediu para que eu e meus excepcionais amigos colunistas - Kid Vinil e Andreas Kisser - escrevêssemos sobre o Carnaval. Não tenho a menor ideia de como eles irão se referir a este evento, mas posso adiantar uma coisa a vocês: de minha parte, sinto um amargo gosto de derrota em minha boca, como se fosse um Napoleão tentando abrir uma lata de sardinhas com um garfo de plástico em seu exílio na ilha de Santa Helena, abatido e impotente perante a circunstância que me rodeia.

Durante alguns dias, vou tentar escapar da verdadeira ditadura televisiva imposta pelo Carnaval, mas sei que não vou conseguir. Tenho plena consciência de que serei nocauteado por frases imbecis, proferidas por exércitos de exibicionistas, todos ansiosos por uma suruba que nunca se concretiza. Serei submetido a grotescos espetáculos de alegria plástica, sem vida, provenientes de gente cuja maior qualidade é exibir cirurgias plásticas - algumas invejáveis, outras semelhantes a serviços de borracharia mal feitos -, sem um pingo de autenticidade, sem o menor resquício de emoção sincera.

Não tenho nada contra a exposição de corpos femininos nus - muito pelo contrário! -, desde que eles venham acompanhados de uma aura de sensualidade e beleza. Não há espaço para a ingenuidade em avenidas salpicadas de pessoas mortas por dentro, muito menos para o tesão. O que resta é um festival de repugnância proporcionado pelas emissoras de TV. É duro admitir, mas a burrice parece ter se tornado item de cesta básica. Conseguimos a proeza de profissionalizar a idiotice!

O Carnaval se tornou um evento para os outros. Empresas, fabricantes de cervejas, socialites deformadas pelo excesso de botox a ponto de se parecerem com lagartos, celebridades emergentes de 97ª categoria, playboys babacas, garotas de programas disfarçadas em atriz e modelo... É para essa turba falsamente animada que a festa do Rei Momo (quem?) existe hoje. O tumulto resultante é o espelho fiel do que o Brasil se tornou. Para os turistas estrangeiros, somos alegres bufões, sorridentes mesmo quando sabemos que milhares de crianças morrem como moscas porque não têm o que comer. Na verdade, no fundo da alma, essa cambada de "ex-BBBs da vida real" se comporta como palhaços desdentados, subnutridos de inteligência e bom senso. As pessoas se tornaram prisioneiras da imagem daquilo que se espera delas.

O Carnaval é um retrato cheio de purpurina da realidade que vivemos: tumultuado, confuso, artificial, violento, narcisista, louco - no pior sentido da palavra -, bruto e patético. O problema não é o Carnaval, mas sim o que ele espelha.

Não, não tenho saudade do passado, mas percebo que, em um tempo não muito distante, vivíamos de uma maneira diferente, mais cordial e sincera, mesmo quando nosso espírito mambembe se confrontava com o início de uma nova ordem, que determinava que só a exibição contínua e a qualquer preço seria o caminho para uma "carreira de sucesso".

Por que existe tanta gente disposta a fazer qualquer coisa para ganhar dinheiro e/ou aparecer na TV? A resposta pode estar no fato de que essa imensa massa de imbecis está totalmente desiludida com os benefícios que a aquisição de cultura pode trazer ao espaço vazio que existe entre as suas orelhas. A turba de idiotas prefere o caminho mais fácil, que passa pelo constrangimento de expor suas vergonhas intelectuais e físicas em cadeia nacional.

Como é possível fazer germinar a cultura de um país por meio da massificação? E quando escrevo "cultura", me refiro também à música, um dos principais combustíveis para nossa existência. Como acreditar na musicalidade de um Carnaval em que os samba-enredos são todos iguais, a ponto de você esqucer cada um deles segundos depois de ouvi-los?

Hoje, fazer parte do Carnaval é trabalhar como um macaco de realejo perante uma plateia cheia de zumbis sorridentes. Se essa é a sua noção de "alegria popular", vá fundo. Mas depois não diga que eu não o avisei...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Show: METALLICA – 30/01/2010 – Estádio do Morumbi-SP

Eu vi o melhor show de Metal do mundo (quase) da grade!

“I’m feeling, São Paulo”, disse James Hetfield ao fim de “For Whom The Bell Tolls”. “We just played two songs and I’m already smiling.” Se ele, que faz isso há quase 30 anos já estava assim, imaginem como eu, lá na Pista VIP, a cerca de 15 metros dele, estava nesse momento, após ouvir o clássico matador do disco “Ride The Lightning”. O que vou relatar nesta resenha extrapola qualquer barreira do Jornalismo em si, caindo escancaradamente para um relato puro e apaixonado de um fã que teve uma oportunidade única na vida. Portanto, se você não é fã do Metallica, ou não foi no show, pode até achar o que está escrito aqui exagerado e bobo, mas tenho absoluta certeza que, quem esteve lá no Morumbi dia 30 de janeiro, não vai discordar um milímetro sequer desta “resenha”.

Minha mulher até disse durante a semana que antecedeu o evento que eu estava parecendo uma criança, tamanha ansiedade que estava. E estava mesmo! Não era pra menos, afinal, o Metallica é a banda que eu mais gosto e, até então, só tinha ido naquele show de 1999, no Anhembi, que teve uma produção tosca (se é que dá pra falar que teve alguma produção). Não bastasse isso, a banda ainda estava na pior fase criativa da carreira, após o lançamento do “Garage Inc.”, disco de covers que sucedeu os famigerados “Load/Re-Load”. O que vi lá não foi, de fato, impactante, não tinha “sangue-no-zóio” e não me fez querer ter uma banda de rock! Vi uma banda fria, sem punch, sem feeling, apenas “cumprindo a agenda”. Além disso, na época eu tinha 15 anos e ainda não sabia como aproveitar de fato um show. Mesmo assim, fã é um ser idiota e não deixa de gostar da banda. A paixão dele por ela apenas adormece. Bastou o anúncio dos shows no Brasil, no fim do ano passado, pra essa chama reacender a ponto de provocar um incêndio de proporções romanas!

Claro que eu compraria ingresso pra Pista VIP! Não sou a favor de ver minha banda favorita de longe! Eu compro todos os DVDs deles e assisto infinitas vezes! Não iria ficar vendo de longe! Já basta abrir mão da “briga pra chegar na grade” em shows de outras bandas que não sou tão fã (rs)! Os 300 mangos negativos na minha conta nunca tiveram cada centavo tão bem gasto como nesse show do dia 30!

O Sepultura abriu a noite, às 20h, ainda com sol na cabeça! É inegável a força que a banda ainda tem! Porém, quando apresentaram as músicas do mais recente disco, “A-Lex”, ficava claro que a galera apenas demonstrava respeito e não empolgação por tê-los abrindo a noite. É. Eu ainda sou um órfão do Max Cavalera. De qualquer forma foi muito bom “aquecer” ouvindo sons como “Dead Embryonic Cells”, “Arise” e “Inner Self”. Fato negativo foi apenas o volume baixíssimo que tocaram, o que permitia todos conversarem sem maiores esforços na platéia. Cheguei até pensar que estava acontecendo outro boicote, como em 1999, mas não. Aquilo é o volume de uma banda de abertura mesmo.

Em seguida, os roadies do Metallica começaram os ajustes e, pra minha felicidade, ao primeiro acorde que um deles deu na guitarra do Hetfield, já pensei, “Puta merda, vou sair daqui com meus ouvindo zumbindo”, tamanho volume e pressão sonora que um simples “mizão” da ESP Custom dele dava! Nisso, a acalorada tarde já havia dado lugar a uma noite maravilhosa, de céu limpo, com uma Lua cheia reluzente. Até parar de chover na Capital o Metallica fez nesse dia!

Às 21h30, pontualmente, os refletores do estádio apagaram e os primeiros acordes da “Ecstasy of Gold” soaram nos PÁS, acompanhado de cenas do filme “The Good The Bad & The Ugly” nos telões laterais. Meu coração quase explodiu meu peito essa hora! Totalmente desaconselhada para cardíacos essa introdução! Ao fim dela, Lars entra tomando seu Gatorade no copinho e bate quatro vezes no “China”: “Creeping Death”(Nota do R.: estou arrepiado neste momento em que estou escrevendo isso, só de lembrar disso)!

Pouco antes de começar a cantar, James levanta os dois braços e solta um grito fora do microfone. Estava iniciado o ritual de dominação! Inesquecível também o grito de “São Paulo” no fim da música, assim como ele grita o nome de todas as cidades! Acho que não há outro começo de show tão épico e empolgante quanto esse com “Creeping Death”! Depois disso, sem qualquer demora, Robert Trujillo sobe na plataforma atrás da bateria e começa a bater em seu baixo, já com a distorção no talo, anunciando “For Whom The Bell Tolls”. A essa altura eu já estava brigando com meu corpo para manter meus batimentos cardíacos abaixo de 160 BPM e fazer minhas cordas vocais não se desgastarem! Afinal, ainda tinha muito, mas muito mais Metallica por vir!

Após falar de “paixão por tocar para fãs apaixonados”, Hetfield anuncia a primeira surpresa da noite: “The Four Horsemen”. A essa altura, todo mundo já sabe que o Metallica tem algumas músicas que são fixas no set list, alterando apenas algumas a cada show. “Horsemen” foi tocada de maneira mais lenta, quase na velocidade do disco. Isso pareceu dar mais peso, sem contar que ficou muito mais “gostosa de cantar junto”. A próxima surpresa foi a pesada “Harvester of Sorrow”, do “...And Justice For All”. O groove desse som é coisa de louco e aquela parte antes da última estrofe, em que a música pára e James encara todos antes de retomara a música “no grito”, faz praticamente todos ficarem em silêncio no estádio! Acho que todo mundo gosta dessa parte (rs).

Quando colocaram um violão na plataforma acima da bateria, achei que tocariam “The Unforgiven”, mas, para minha surpresa (mais uma!), James começou “Fade To Black”, minha favorita. Foi difícil não ir às lágrimas no solo do final, cantando “uoô” junto com as guitarras, mas resisti bravamente, apesar de estar com os olhos cheios neste momento ao lembrar disso!

Aqui cabe um parêntese: o Metallica está tocando melhor que nunca! Lars pode estar com uma cara de velho bêbado e acabado, cheio de rugas, mas não perde um tempo e bate forte como poucos em seu kit. Kirk, que tinha fama de ser “grosso” ao vivo, por sempre comer notas nos solos, calou a boca de todos com uma execução perfeita, tranqüila, cheia de feeling e, principalmente, sem nenhum erro, tanto de nota ou de perda de tempo, nos solos e bases. Trujillo sempre foi um baixista fodasso e, só consigo destacar o peso absurdo que seu timbre dá a cada dedada que ele desce sem dó nas cordas. E James, como comentou um cara do meu lado, faz parecer fácil cantar com uma voz potente, limpa e clara, e tocar palhetando sempre baixo numa velocidade absurda! Sem contar que ele ainda consegue conversar com a platéia enquanto faz isso. É realmente para poucos...

Aí chegou a hora da “Sessão Death Magnetic”. “That Was Just Your Life”, “The End Of The Line” e “The Day That Never Comes” foram tocadas em seqüência e a impressão que ficou é que esses sons foram compostos para tocar ao vivo mesmo, já que têm uma força descomunal que o disco de estúdio não consegue atingir. A próxima foi a “necessária” “Sad But True”. Necessária, porque, apesar de já estarmos todos enjoados de ouvir ela por aí, ela tem que estar em qualquer show do Metallica, tamanha a força que carrega em seus poderosos riffs. Sem contar que a pose de fodão do James Hetfield com a ESP Explorer preta e pernas abertas batendo cabeça durante essa música foi a imagem que mais me marcou no show! Aquilo sim que é a personificação do Metal!

“Broken, Beat and Scarred”, dedicada ao público, deu seqüência ao massacre. Os backing vocals “What don’t kill ya make you more strong” muito fodões e esse som mostrou que o Death Magnetic é de fato um disco para tocar ao vivo!

Então tudo se apagou...

Me senti no meio de um filme de guerra em 3D! A pirotecnia utilizada para anteceder “One” é coisa que fazer inveja a qualquer baloeiro de São Paulo ou à comemoração de uma Copa do Mundo! E dá-lhe labaredas de 10 metros de altura que fazia gente lá no fim da pista se “arrepiar ao sentir o calor”. Fora as bombas que estouram cruzando o palco com um estampido ensurdecedor! O que foi aquilo?!?! A música em si só não ficou em segundo plano, porque, como todo mundo sabe, ela é fodona!

O que pode-se dizer de uma banda que pode emendar uma música chamada “Master of Puppets” em outra chamada “One”?!?! Você mal acaba de ter um orgasmo e lá vem mais prazer infinito de novo! Você não respira! Nem percebe que já passou uma hora de show! E que coisa linda aquele solo dobrado no interlúdio! Só não chorei porque eu tava lá dando uma de fodão mesmo (rs)!

Mais uma surpresa: “Blackened”! Cada vez que Hetfield gritava “Fire” no refrão, quatro labaredas de 10 metros de altura subiam aos céus nos esquentando. O cara, além de tudo, é o “Deus do Fogo”! Imagina o poder que ele deve sentir ao hipnotizar 68 mil pessoas em um estádio com sua música e ainda ter labaredas de 10 metros de altura crescendo a cada comando seu! Não é mesmo pra qualquer um...

Depois da cacetada vem a calmaria. James pede que mandemos nossos bons fluidos para Kirk, que, em vez daquele solo estridente, nos premia com um dedilhado lindo, devidamente acompanhado por palminhas! Não há como não se impressionar com a qualidade do som limpo das guitarras deles. Até quem não toca nenhum instrumento podia distinguir tranquilamente a vibração de cada corda da guitarra do maquiado Hammett (sim, isso mesmo, ele passa lápis no olho. Mania dos tempos do “Load”).

De um “solo” com guitarra limpa fomos para “Nothing Else Matters”, com direito a James cantar sentado numa banqueta. Legal que ele faz a platéia participar em quase todos os refrãos da canção e, quando não faz, pude reparar que ele troca a frase de “and nothing else...” para “no, nothing else matters”. Interessante! No fim da música, após fazer seu solo inundado de feeling, James se ajoelhou no palco, de costas, para iniciar a próxima música. Nesse momento, ao perceber que o cameraman filmava sua mão direita, ele fez uma brincadeira com a palheta (personalizada com o caixão da capa do disco), quebrando todo o clima soturno criado pela balada.



Foi o que precisava para incendiar novamente a platéia para o maior sucesso do grupo, “Enter Sandman”, com direito a fogos de artifício e tudo mais que temos direito!

Chegou a hora do intervalo para o “bis”. Achei que iríamos ficar uns 5 minutos esperando, mas em pouco mais de 2 minutos, eis que eles voltam pulando feito crianças no palco! James avisa que nessa hora eles sempre homenageiam uma banda que os inspirou e que o escolhido naquela noite era o Queen. E dá-lhe a pesada versão de “Stone Cold Crazy”. Cabe ressaltar que James, de um adolescente tímido e inseguro, se tornou num dos frontmen mais comunicativos do mundo! Ele já tinha carisma só de empunhar a guitarra. Falastrão desse jeito então...

Surpresa master da noite: “Motorbreath”! Quando Kirk começou o riff cavalgado, foi difícil conter a emoção de ouvir uma das primeiras músicas Thrash Metal da história! E Lars, mesmo depois de ter tocado por, até então, duas horas, ainda acelerou o final, chegando na velocidade de um som do Slayer! Imaginem isso, caros leitores! Quer mais “sangue-no-zóio” que isso? Ah, você quer? Ok. Então toma: as três palavras mais esperadas da noite foram entoadas:

SEEK AND DESTROY!!!

Com afinação mais baixa e com James comendo (propositalmente) uma parte do riff do início, o show não teria música mais apropriada para encerrar. Oh riff desgracento esse! Não houve como ficar parado na pista. Uns pulavam, outros abriam circle pits, outros berravam! E eu fiquei lá, com cara de pasmo, quando não acreditando que tava vendo aquilo acontecer, bem de perto! Foi, de longe, o melhor show que já assisti na vida! E tá bem longe mesmo do segundo melhor!

O telão gigante que fica atrás do palco é o melhor cenário que uma banda pode ter! Até quem sentou lá na arquibancada, lá longe, na PQP mesmo, viu com detalhes esse show! Até as rugas/cicatrizes causadas pelas queimaduras nas mãos do James em 1992 deu pra ver com detalhes! E os câmeras que ficam lá no meio do palco, não atrapalham nada! Você mal nota os indivíduos! Talvez seja até pela atração magnética dos membros da banda, mas a verdade é que eles sabem filmar o show da melhor maneira possível! Eu até me vi no telão quando um deles focou a platéia! Que orgulho! hehe

Pra finalizar, achei duas frases interessantes que poderiam resumir tudo que escrevi aqui:

“Metallica é Metallica! O resto é resto.” (frase vista no meu MSN no dia seguinte ao show)

“Metallica é bom demais, porque é feito para o moleque espinhudo, inseguro e rancoroso que existe dentro de todos nós.” (André Forastieri, jornalista)

Precisa falar mais alguma coisa? Meus ouvidos ficaram zumbindo até segunda-feira! Que delícia!

Set list:
Creeping Death
For Whom The Bell Tolls
The Four Horsemen
Harvester Of Sorrow
Fade To Black
That Was Just Your Life
The End Of The Line
The Day That Never Comes
Sad But True
Broken, Beat and Scarred
One
Master Of Puppets
Blackened
Nothing Else Matters
Enter Sandman
- - - - - - - -
Stone Cold Crazy
Motorbreath
Seek and Destroy

Galeria de Fotos - cortesia do site Metal Remains

Fotos da matéria: William Bastos (clique nas fotos para abrí-las na resolução original)

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

My life story: Randy Blythe (Lamb of God)

Li essa entrevista na edição de dezembro da revista americana Revolver e achei interessante traduzir. Quando eu fiz aquele artigo sobre o fim das revistas de Rock no Brasil, uma das minhas grandes preocupações era justamente não poder saber como e o quê o cara que faz a música que eu curto pensa! Essa entrevista, que faz parte da seção chamada “My life story”, é justamente isso: não tem nada perguntando do disco do Lamb of God, da tour, da gravação etc. Só tem pergunta pessoal, ainda que seja voltada para o universo roqueiro. Nisso eu sei que o cara que berra lá, de fato, tem algo a dizer, que ele não é um tapado e que eu não venero um babaca (vide o lamentável costume de James Hetfield, do Metallica, em caçar ursos). É disso que eu sinto falta. Atualmente temos apenas a Roadie Crew como revista de Rock no Brasil, nem to contando a Rock Brigade, pois a qualidade caiu demais, e ela (a Roadie Crew) INFELIZMENTE é uma revista que escreve para uma massa bovina, com entrevistas superficiais, apenas sobre assuntos que não acrescentam nada na vida de qualquer ser pensante. Claro que há exceções, vide que o excelente redator Antonio Carlos Monteiro hoje integra o cast da revista, mas, em geral, a qualidade do material é fraca. Tudo bem, isso pode ser reflexo da (falta de) cultura do povo brasileiro, que não lê como deveria, mas isso já é assunto pra outro post. Segue o link e a tradução da entrevista. Aproveitem pra ver como uma revista de Rock pode ser muito interessante e legal. É disso que eu to falando!

LINK: Revolver Magazine

Por Dayal Patterson

Onde e quando você nasceu?

Nasci em 21/02/71, em Fort Meade, Maryland. Nós morávamos em uma base militar e meu pai era da aeronáutica. Mas nós não ficamos lá por muito tempo.

De que tipo de família você veio?

Meus pais se separaram quando eu era jovem, mas isso foi uma coisa boa – não teve nenhuma treta por custódia de filhos ou coisa parecida. Eles eram ótimos pais, apenas não estava dando certo juntos. Quando eu estava na quarta série, me mudei para Virginia com meu pai e meus irmãos e nós vivemos lá por alguns anos na fazenda da minha avó. Era realmente muito legal. Meu pai trabalha pra caramba, então eu, junto com minha avó, meio que criamos meus irmãos mais novos.

Você era um bom irmão mais velho?

Eu era super protetor. Eu fazia o máximo para ter certeza que eles faziam o dever de casa e ficassem longe de encrencas. Eu não fui sempre o melhor modelo de irmão, mas minhas intenções eram sempre boas.

Com o que você se parecia quando estava crescendo?

Descobri o mundo do Punk Rock quando estava na sexta série e, antes disso, eu tentava estar na onda de todo mundo. Eu tentava me encaixar em alguns grupos, mas eu era um nerd e minha família não tinha muito dinheiro. Quer dizer, nós não vivíamos num barraco ou coisa parecida, mas certamente não éramos ricos. Crianças podem ser bem cruéis se você não tem as roupas da moda e o que mais seja, porque eles, em sua maioria, foram criados por pais idiotas de “cabeça-fechada”, que os ensinaram a ser “idiotas de cabeça-fechada”. Então, eu tentava andar com todo mundo, exceto pessoas que não era amigáveis comigo. Eu nunca fui muito popular ou algo do tipo, então, quando eu entrei para o Punk Rock, foi tipo “fodam-se todos” e isso era uma maneira de me manter desse jeito.

De que modo você era um nerd?

Cara, eu ainda sou um nerd! Eu ainda jogo RPG (Dungeons & Dragons) e esse é ponto máximo que eu chego nessa! Eu nunca fui de fazer esportes. Eu até pratiquei luta por um tempinho. Mas eu não era aquele cara que jogava futebol americano. Eu era sempre aquele cara que estava lendo um livro. Eu trabalhava em um bar e eu me lembro que o bartender me disse uma vez: “Randy, se na biblioteca vendesse cerveja, nós nunca mais te veríamos.” Eu sempre estava como nariz enfiado em algum livro e ainda faço isso. Não entendo a vida sem os livros, é isso é que me acalma. É... RPG, livros, gibis, óculos grossos... Nada mudou mesmo!

Como você entrou no Punk Rock?

Eu estava na sexta série e naquele verão fui para um acampamento de estudos (nerd camp) que era para crianças “superdotadas e talentosas”. Eu gostava de música, mas até então só tinha acesso ao que tocava na rádio. Um cara chamado Jason me emprestou uma fita com o “Never Mind The Bolloks” dos Sex Pistols de um lado, e com Bob Marley do outro. Eu gostei do Bob Marley, ainda sou um grande fã de reggae, mas com os Pistols foi algo tipo: “Wow! É disso que eu to falando! Esses caras são realmente fodidos!”

Ser um punk não facilitava as coisas na hora de se encaixar em alguma turma?

Antes de você poder comprar sua casinha pré-fabricada de estilo gótico ou o seu primeiro uniforme punk rock por correio, você tinha que garimpar muito para descobrir bandas novas e boa música em geral. Não havia Internet, MySpace ou Amazom.com – conhecer bandas levava um tempo e era um passatempo bem legal. Eu sei que sôo como um velho amargurado, mas sinto falta disso nos dias de hoje. O Nirvana apareceu junto com o Green Day e de repente um monte de pirralhos nada a ver no mundo todo estavam pintando o cabelo de verde. Isso modificou o Underground profundamente. Antigamente, se você fosse ser o “freak” e quisesse se vestir como um “freak” você seria, de fato, tratado como um “freak”. Hoje isso ficou banalizado. (N. do R,: freak é “aberração” em Inglês).

Havia muitas tretas?

Yeah, havia muitos conflitos e brigas. Conflitos verbais aconteciam o tempo todo, alguém estava sempre falando merda. As pessoas têm medo do que elas não conhecem... Infelizmente, a maioria dos seres humanos tem cabeça pequena, acredito. Comecei ir a shows com 14 ou 15 anos e conheci um monte de pessoas como eu. A principal razão que escolhi fazer faculdade em Richmond é que lá tinha uma grande cena musical. Eu costumava ir pra lá direto para ver shows. Me mudei pra lá com a desculpa de fazer a faculdade, mas na verdade foi pra sair de rolê e ir nos shows que rolavam.

Você curtiu sua época de faculdade?

Foi maravilhoso! Eu morei nos dormitórios da faculdade no primeiro ano, mas de algum modo eu mal ia para as aulas. Eu nunca terminei a facul – acho que ainda estou na lista de presença lá. Deve faltar uma matéria ou algo assim para eu fechar. Mas foi foda! Havia shows todas as noites durante a semana. Se não fosse num barzinho ou em algum clube, sempre havia em alguma festinha.
Ter vivido em Richmond tem uma grande influência na sua personalidade?

Todo mundo lá fazia música. Havia ótimas lojas de discos e livrarias e sempre tinha alguém fazendo algo interessante – escrevendo, pintando, esculpindo, fazendo zines. E todo mundo levava a sério o que fazia. Ninguém estava tentando ficar rico ou famoso com aquilo, apenas tentavam fazer a melhor arte que podiam. Era muito inspirador ver as pessoas fazerem o seu próprio lance, pensarem por si mesmas, não vivendo com extravagâncias e sendo perfeitamente tranqüilas com aquilo. Sendo felizes.

Richmond é a cidade natal de muitas bandas respeitadas. Você tinha muito contato com esse pessoal das bandas, né?

Claro que eu vi o Gwar quando eu era adolescente e eles ainda são bons amigos meus até hoje. Quando eu vi eles pela primeira vez ao vivo eu ainda não conhecia os caras e fiquei tipo, “meu deus o que é isso?” Eles eram misteriosos pra mim, com as máscaras e tal, mas com o tempo você percebia que eles eram apenas os caras que você trombou no bar ou que viu trabalhando em empregos comuns. Eu vivia perto da casa do pessoal do Avail – eles tinham vindo do norte do Estado (Virginia) e meio que construíram sua própria cena. Chegou num ponto que você não podia ser visto com eles em Richmond, pois você seria um “vendido”, então eles faziam suas próprias festas particulares em casa.

Como você começou a cantar em bandas?

Eu era amigo de todo mundo que tinha banda e tinha uma chamada “hose.got.cable”. De vez em quando eu brincava com eles, pois eu podia fazer a “Metal Voice”. Uma vez, um camarada meu do Burn The Priest (nome antigo do Lamb of God) disse, “você tem que tentar cantar na minha banda”, mas naquele tempo eu tava numas de viajar o país em trens de carga e morar em abrigos e acabei dizendo pra ele, “vou estar viajando durante o verão e quando eu voltar a gente conversa.” Eu voltei dois meses depois e, em uma noite que eu estava vendo eles tocarem eu disse pra minha então namorada: “Essa banda é fantástica. Essa é a banda que eu vou cantar!” Então eu tomei a decisão de estar em uma banda – eles não teriam escolha! Mas claro que eu não tinha a menor idéia que isso se tornaria a minha vida. Seria só mais uma coisa pra matar o tempo.

Você nunca imaginou que a banda se tornaria grande?

Nem fodendo, cara! Quando formamos a banda a intenção era apenas dar uns rolês juntos e tomar umas brejas. Talvez tocar em algum bar e, ocasionalmente, sair da cidade para alguns shows. Tudo foi acontecendo muito devagar e naturalmente pra nós. Isso faz uns 15 anos e a gente têm ralado todo santo dia desde então.

Era difícil conciliar a vida de banda com a rotina da semana?

Cara, eu acabei de chegar de uma tour de seis semanas, não ganhei nenhum tostão nela e saí do ônibus direto para o restaurante onde trabalho, pois eu tenho contas a pagar. Mas era normal, todo mundo em Richmond fazia isso então não é algo do tipo, “nossa, que sacrifício.”

Tem sido difícil conciliar a vida em família com uma banda de sucesso como o Lamb of God?

Sim, é difícil. É como uma curva de aprendizado e estou aprendendo aos poucos, assim como minha esposa, eu acho. Nós acabamos de fazer uma tour mundial e eu estarei em casa só por três semanas antes de sair para outra tour. E ainda fico uma semana pra me acostumar com os horários e pra sair do jetlag. Minha esposa é muito, muito paciente comigo. Ela sabe que estou cansado, mas que ao mesmo tempo, logo que eu voltar da tour, meus amigos vão me chamar pra dar um rolê e minha família também vai querer passar um tempo comigo. Eu tento ao máximo passar um tempo tranqüilo com minha esposa, mas ainda assim acabo fazendo entrevistas e, além de tudo, fico procurando passar um tempo comigo mesmo. Então é bem difícil. Por sorte, as mulheres que eu e os caras da banda casamos são esposas excepcionais e estão com nós desde o tempo em que não éramos famosos.

Apesar de todo o sucesso, você ainda é extremante franco nas respostas. Você sente que aquele adolescente punk ainda está dentro de você?

Sim, absolutamente! Com toda certeza do mundo! Eu mantenho essa atitude e não acho que há nada de errado nisso. Quando você tem 16 anos todo mundo é louco. Eu simplesmente só era mais louco que a maioria. Mas eu era louco de um jeito estúpido, porque moleques são estúpidos mesmo, né? Desculpe garotos, vocês são mesmo. Conforme fui ficando mais velho apenas fui percebendo com o que valia mais a pena ser louco. Há um monte de injustiça e coisas ruins acontecendo, e as pessoas certamente devem estar loucas. Aí está uma coisa que justifica a raiva e você não pode simplesmente deixar ela sair à toa. Esse é um dos problemas que eu acho que existe no mundo. As pessoas não são loucas, elas usam vendas o máximo que elas podem para se manter na zona de conforto e foda-se o resto!

Que tipo de coisa deixa o adulto Randy Blythe com raiva?

Eu acabei de voltar da Indonésia e vi a pobreza mais chocante de toda a minha vida. Lá você pode até alugar um bebê por dois dólares pra dar uma volta. Isso diz algo sobre a pobreza e os valores da existência humana. E isso acontece na maior parte do mundo. Em muitos lugares você não tem água potável ou eletricidade. Eu acho que as pessoas têm que perceber essa realidade e que há um monte de coisa a fazer para consertar o mundo. Eu fico simplesmente enojado com as pessoas que só pensam em si mesmas.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Lançamentos de 2009 resenhados - Parte 2

É isso aí! Ainda em 2009! Último post do ano! Espero que gostem e que, principalmente, COMENTEM AQUI no blog! É, porque é o meu melhor termômetro pra saber se querem, ou não, me bater por conta das minhas opiniões (rs)! É isso! Obrigado a quem teve a paciência de nos acompanhar nestes primeiros meses! Um ótimo 2010, com muito Rock para todos!

Slayer - World Painted Blood
Nota: 7,5


Definitivamente este não é um caso de “amor à primeira ouvida”! Para uma banda como o Slayer, que todo mundo já sabe a história, quem eles são e do que são capazes, uma nota 7,5 é praticamente passar de ano raspando, com aquele cincão que o professor te deu por dó só pra não te deixar de “DP”. Que fique claro desde já: não é um disco ruim! Longe disso! Mas para quem já soltou um “Reign In Blood”, este WPB está bem abaixo da média. Ok, querer comparar com o clássico dos clássicos do Thrash Metal é até mancada, mas é que não consigo tirar da minha boca aquele gostinho de decepção ao ouvir este álbum. E olha que ele não sai do meu MP3 e eu já até comprei o CD pra coleção (rs)! Afinal, o que tem de “ruim” nesse play? Ele é forçado e, infelizmente não tem aquele punch desgracento característico do Slayer. O último que teve isso foi o “God Hates Us All”, de 2001. Pô, quem não tem vontade de dar porrada ao escutar “Payback”, por exemplo? Aqui não temos isso em nenhum som e, os mais porradas, como “Unit 731” e “Public Display of Dismemberment”, apesar de fodões, não empolgam tanto. O primeiro, aliás, tem uma intro que lembra bastante a “Necrophobic”. O problema é que, não se sabe o motivo, Dave Lombardo está lerdo em seu kit de batera. Claro, o “lerdo” desse cara ainda é muito rápido, mas, por exemplo, a velocidade máxima imprimida em qualquer faixa desse disco não pega uma “Dittohead” ou a própria “Necrophobic”. Outra referência ao passado aparece em “Snuff” (algo como “fungada” ou “baforada”, em Inglês), que tem o início com aquele solo “torto” do Jeff Hannemann, lembrando muito a “Captor of Sin”. Temos também alguns sons mais lentos, como “Human Strain” e “Beauty Through Order” que, pra mim, estariam muito bem no “Diabulos in Musica”. As melhores do play são “World Painted Blood”, “Hate Worldwide” e “Psychopathy Red”. A primeira é um Thrash com andamento devagar (!!!), mas possui alguns riffs bem legais e diferentes do que o Slayer costuma fazer, sem contar que o final lembra (de novo uma referência ao passado!) o final de “Angel of Death”. A segunda é um som rápido, curto e grosso, com solos legais e uma base bem marcada. A terceira, a melhor de todas, além de uma produção superior, é a que mais passa aquele sentimento de querer dar porrada como em “Payback”, sem contar que o refrão tem um riff que lembra (mais uma vez!) sons como “Hell Awaits” ou “Postmortem”. Outro fator que pesa negativamente é o timbre das guitarras. Ele está seco demais, com pouca distorção, lembrando algo na linha do AC/DC. Isso, com as palhetadas rápidas de Kerry King e Jeff Hannemann, deixa muitos buracos e tira o peso do som, contando ainda com o fator “ausência do baixo”, sempre “presente” nos discos do Slayer. Em suma, é um disco bom, mas ainda assim, muito aquém se ele for tratado (e deve ser) como uma obra do Slayer.


Lamb of God - Wrath
Nota: 9,0


Quem não se lembra daquele vídeo de “Black Label” ao vivo no Hellfest 2003, numa tenda em um daqueles festivais undergrounds americanos? Esse vídeo foi a “escola” dos movimentos que vemos em qualquer moshpit hoje em dia! Além disso, ele trazia uma banda até então desconhecida, mas muito boa, com um vocalista malvadão, dois guitarristas com uma pegada absurda e presença de palco idem, e um batera que poderia muito bem ministrar workshops em qualquer conservatório de música do mundo. O nome era estranho, Lamb of God, mas mesmo assim pegou! Hoje, pra mim, esses caras estão suprindo muito bem o vácuo que o Pantera deixou na cena! E não digo isso só pelo timbre e presença de palco do insano vocalista Randy Blythe, que lembra muito Phil Anselmo, mas também pelo incrível groove e peso que eles empregam em seu som, assim como a banda o saudoso Dimebag fazia com primor. Mesmo completando 20 anos de estrada agora em 2010, e depois de lançarem dois discos de sucesso na cena, “Ashes of the Wake” e “Sacrament”, ele ainda demonstram um pique de “iniciante” incrível neste “Wrath”, um disco que faz jus ao nome. “Ira” é tudo o que encontramos aqui, mas de maneira muito bem elaborada, com riffs ainda mais trampados e perfeitos pra bater cabeça, solos de deixar os guitarristas do Iron Maiden orgulhosos e vocais cavernosos! Tudo envolvido por um peso absurdo de uma timbragem bem grave, porém muito bem definida pela ótima produção de Josh Wilbur. O play começa a intro “The Passing”, que resgata aquela tradição dos discos oitentistas de Thrash Metal com dedilhados e lindos solos dobrados de guitarra, para cair na pancadaria desgracenta de “In Your Words”, que entra com um riff martelado e explode em seguida num berro “assusta-criancinha” de Blythe. A partir daí é só porrada, com os dois singles “Set To Fail” (que blast beat coeso!) e “Contractor” (deliciosamente inconsequente). Lembra que eu falei de solos de guitarra? Eles não eram tão presentes na música do “Cordeiro de Deus” até então, mas nesse disco, Mark Morton e Willie Adler resolveram mostrar que não passaram a adolescência praticando guitarra à toa! Escute os de “Everything To Nothing” e “Choke Sermon” pra entender o que digo! Aliás, o solo da primeira tem uma passagem que me lembra a vinheta de abertura do Globo Repórter (rs)! Não foi à toa que este play estreou em 2º lugar na Billboard! Confira ele na íntegra no MySpace dos caras!


Killswicth Engage - Killswitch Engage
Nota: 6,5


Quem me conhece sabe que nunca fui fã do KSE. Mas mesmo assim sempre admirei os breakdowns e as guitarras dobradas bem trampadas que esses americanos sempre colocam em sua música. O ponto que fez eu nunca virar fã deles é a aquela formulinha que eles seguem em insistir disco após disco, talvez por achar que isso faz parte de um estilo novo que supostamente eles estariam criando. Eis a fórmula: “a gente começa a música no arregaço, com guitarras dobradas, bumbo duplo, vocal urrado-assusta-criancinha e aí, quando chegarmos no refrão, toda a destruição descamba pra melodia mais bela que pudermos fazer.” Assim eles forjaram a sua carreira de sucesso! É, mas chega uma hora que repetição enche o saco até de masoquista e, como toda banda sempre tem um disco ruim na carreira, creio que este é o dito cujo do KSE. A questão é que o KSE sempre circulou no meio do Metal devido às partes pesadas de sua música. Normalmente os ouvintes casuais da banda “aturavam” essas melodias empregadas nos refrãos e deixavam a parte pesada “compensar”. Só que nesse auto-intitulado play eles extrapolaram nos elementos melódicos e nas partes lentas, criando um disco bem pop e chorão, ainda que com guitarras pesadas. Claro, há sons excelentes, como “Take Me Away” e “The Forgotten”,com todos os elementos característicos que consagraram a banda. Este primeiro, inclusive começa com guitarras de dar orgulho a Adrian Smith e Dave Murray e tem uma melodia no refrão que você pode colocar pra jantar com sua mulher sem parecer piegas. Mas ao lado disso tem as melodias mais chorosas e os momentos mais “emo” do KSE, como “Starting Over”, onde nem mesmo a levada cavalgada a lá “The Trooper” salva o caldo. Esses momentos do disco me fazem crer ainda mais na teoria de que quem participa e apóia essa tal cena do “metalcore” são os órfãos da primeira leva do “emo”, que se utilizava do poppy punk (ou Hardcore melódico se assim faz-se entender melhor) na primeira metade da década. Hoje em dia, esse pessoal evoluiu como instrumentista e faz o tal do “metalcore” como forma de expressão, já que ele usa elementos pesados pra mascarar a choradeira do pano de fundo. O legal é que modinhas sempre morrem...


Kiss - Sonic Boom
Nota: 8,0


A banda mais marqueteira do mundo voltou em grande estilo! Esse “Sonic Boom” lembra os melhores momentos dos mascarados e pode ser colocado ao lado dos clássicos que eles fizeram na década de 70 sem que isso soe como uma profanação! Imaginem se o “Destroyer” ou o “Hotter Than Hell” (meu favorito) tivessem uma produção com os recursos tecnológicos de hoje? Seria algo bem próximo deste play! É aquele Hard Rock rasteiro, malandro e festeiro que só Gene Simmons e Paul Stanley sabem fazer quando se propõem! Junta-se isso com a competência de músicos como Eric Singer e Tommy Thayer e tem-se um disco gostoso de ouvir, com músicas de puro Rock n’ Roll, como o próprio Gene avisou antes do lançamento! Pegue a música de abertura e primeiro single Modern Day Delilah, por exemplo, e você vai ter uma boa amostra de como fazer um Rock n’ Roll pesado e moderno, mas que é ao mesmo tempo uma música com aquele groove setentista que só o Kiss tinha! O resto do play é pura festa! Os vocais de Stanley estão vigorosos como sempre! O baixo de Gene está gorduroso e pesado como o Deus do Trovão! Thayer faz solos no melhor estilo Ace Frehley, mas sem conseguir disfarçar sua técnica apurada latente! Singer segue sólido como uma rocha na batera! Nem mesmo os momentos “vamos-fazer-um-som-pra-pegar-mulher”, como o corinho a lá “God Gave Rock n’ Roll To You” em “Stand” estragam a obra, porque, como já disse: esse disco é pura festa!


Massacration - Good Blood Headbanguers
Nota: 9,0


Eles voltaram! Quem não gosta da piada, que pule esta resenha, porque eles estão ainda melhores! Absolutamente tudo que fez o Massacration a banda mais amada e odiada do Brasil está presente nesse Good Blood Headbanguers (com “guers” mesmo), só que ainda mais extremado. Os fãs de bandas com a “postura Manowar” certamente ficarão com as cabeleiras ainda mais de pé e criticarão sem piedade! Mas, quem já é crescidinho e entende a proposta, certamente estará diante de um dos melhores plays de metal tradicional já produzidos por brasileiros, sem desmerecer nenhuma outra banda! A produção do tarimbadasso parça do Bruce Dickinson Roy Z deixou a timbragem dos instrumentos simplesmente mortal! As guitarras estão absurdamente pesadas sem precisar utilizar o recurso da afinação mais baixa. Nos solos, Roy Z deixou um timbre muito, mas muito oitentista, cheio de delays e reverbs. Escute o da balada “The Bull” e você vai ser transportado direto para o clipe de “One Track Mind” do Motorhead! Essa balada, primeira da banda, aliás, é o melhor som, disparado, tanto no quesito “piada”, como no quesito “som”. Todos os clichês do Heavy Metal estão aqui da melhor e mais cativante forma, que qualquer headbanger (com “ger” mesmo...rs), se souber relevar a piada, baterá cabeça sem dó ao ouvi-la. Tem o dedilhado, a narração com voz profunda, os gritos agudássos, os riffs cortantes. Enfim, tudo o que uma boa canção de Heavy Metal deveria ter e as bandas de hoje parecem ter esquecido como fazer. Tem uma menção à infância nos 80’s em “The Mummy”, com o “tumba-la-catumba-tumba-ta” da Vovó Mafalda! Tem também uma homenagem aos mestres no riff de “The Big Heavy Metal” que remete muito à “Iron Man” daquela banda que vocês conhecem muito bem. Nem preciso falar que nas letras eles se superam, pois, sinceramente, eles poderiam cantar em russo aqui, que esse play ainda seria fodasso! Uma vez eu li um entrevista do Pompeu, do Korzus, dizendo que apesar de boa banda, o Massacration tomava espaço de bandas que estão há anos na estrada fazendo um trabalho sério. Mas, puxa, Heavy Metal também é entretenimento e, com esses malucos aqui, isso é garantia certa da melhor das diversões!


Alice In Chains - Black Gives Way To Blue
Nota: 8,5


Como é que você marca a reunião de sua banda após mais de dez anos e ainda sem o carismático vocalista original, que morreu de overdose? Loucura, né? Mas tem gente que faz dar certo, igual nosso amigo Jerry Cantrell. Primeiro, ele arrumou um vocalista substituto à altura (ou seria um “copiador” à altura?) de Layne Staley, William DuVall. Depois compôs o material mais pesado e mais parecido com os discos que catapultaram a banda como uma das melhores dos anos 90. Tendo tudo isso, aliado à sua habilidade musical e à de parceiros como Mike Inez (B) e Sean Kinney (D), não tem como dar errado! E não deu! O AIC acertou em cheios neste “Black Gives Ways To Blue”. As músicas continuam com aquele clima soturno, mas têm o acento pop necessário para não virar uma chatisse. Fora o peso descomunal que Cantrell impõe nas seis cordas. O primeio single, “Check My Brain”, e a seguinte, “Last Of My Kind”, tem um quê de Black Sabbath muito gostoso de saborear. Não é nem necessário falar dos solos, já que é Cantrell no comando das guitas! Também tem ótimas baladas, como “Your Decision”, onde a voz principal é feita pelo guitarrista. Claro! Experiente como sempre, Jerry Cantrell põe sua voz em todas as músicas, como meio de “camuflar” qualquer desconfiança sobre DuVall e deixar o som com a cara de AIC. Mas, vendo vídeos ao vivo no You Tube, Duvall não faz feio nem nas músicas antigas e é praticamente um ex-vocalista de banda cover do AIC!


Claustrofobia - I See Red
Nota: 8,5


Acho que não tem banda mais famosa que tenha saído das seções de demo das revistas de Rock do Brasil. Sem contar que eles têm em média 26 ou 27 anos de idade e a banda já existe há uns 15 anos (!!!). Neste “I See Red” (algo como “sangue-no-zóio”) o Claustrofobia segue com seu legado de brutalidade em 13 novos sons e mais dois covers. Apesar de tão esmagador quanto o disco anterior, “Fulminant”, o “I See Red” mostra que o grupo está pendendo mais pro Thrash Metal e se distanciando um pouco o Death Metal. Os blast-beats diminuíram, mas a velocidade empregada continua absurda. Caio D’Angelo, apesar de ser baixinho e pouca gente dar alguma coisa pra ele, é um monstro na batera, um dos melhores do Brasil. O mais rápido já acho com certeza, já que não acho blast-beat algo necessariamente rápido, sem contar que é mais fácil de fazer do que agüentar levar uma música tipo Slayer por mais de cinco minutos. O melhor som do play é, sem dúvidas, “Don’t Kill The Future”. Um verdadeiro míssel thrash, nem tão rápido, mas com uma levada foda, de tão empolgante! E os riffs então, estão cada vez mais técnicos! O legal do Claustrofobia é que eles são cabeça-aberta e não fazem a mínima questão de esconder suas influencias Hardcore, dando uma pitada de brutalidade a mais no play. Ah, os dois covers? “Beneath The Remains”, do Sepultura, e “Filha da Puta”, do Ultraje a Rigor, em versões fantásticas!


Heaven & Hell - The Devil You Know
Nota: 8,0


Puta merda! Não tem nem o que falar de uma banda com essa formação! Acho que todo mundo já ouviu esse play e todo mundo sabe que ele é tão foda quando o “Heaven & Hell”, ou o “Mob Rules”, ou o “Dehumanizer”, né? Tony Iommi continua o mestre supremo na arte de fazer riffs pesadíssimos, sombrios e cortantes! É só escutar “Fear” ou “Bible Black” pra constatar que ele não se estagnou e continua criando riffs como se o Black Sabbath, ou melhor, o Earth tivesse começado ontem! Vinnie Appice é sólido como uma rocha e dá todo o pano de fundo necessário para o peso da banda. Geezer Butler também é um dos tiozãos mais foda do mundo, com linhas de baixo pesadíssimas e na composição de alguns dos melhores riffs! E o Dio não teria outro sobrenome em italiano, senão esse de “DEUS”! Quem me dera chegar na idade desses senhores e ainda ter culhões pra fazer um som pesado desses com essa classe e categoria! Eles são foda! Por que nota “8,0” e não “10”? Porque mesmo com tudo isso, acho que ainda faltou aquela coisa que todo clássico do Metal tem. Talvez com o tempo ele vire o tal clássico, mas por enquanto...


Mike “Cyco” Muir - Year Of The Cycos
Nota: 8,5


Ué? Mas não é o novo do Suicidal Tendencies? Não! Trata-se de um disco novo que tem músicas de TODOS os projetos do Mike Muir. Ou seja, temos sons do Suicidal Tendencies, do Infectious Grooves, do Cyco Miko e do No Mercy! Tudo som novo, com as novas formações! É até difícil de resenhar, já que o estilo das bandas difere bastante, apesar de ter sempre a mesma pegada e o mesmo vocal. Dos sons do Suicidal vale destacar “Come Alive”, que tem até clipe, e “Cyco Side Of The Brain”, com um puta groovão funkeado, que não sei como ele não gravou isso como IG. Também tem uma versão ao vivo de “Cyco Vision” muito matadora. Só quem já viu sabe como Mr. Muir e sua(s) banda(s) é foda ao vivo! Legal que com o Cyco Miko ele regravou “Two Wrongs Don't Make a Right (But They Make Me Feel A Whole Lot Better)” do “Join The Army”, clássico de 1987 do Suicidal! E ficou melhor que a original! Que aula de HC é esse som! E com o IG ele continua dischavando, mostrando pro mundo como se faz o melhor dos funks! De qualquer forma, seria mais legal se viessem quatro full lenghts das bandas! Nem queria mais nada, né (rs)?

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Um banquete no camarim do Metallica!

Depois ainda perguntam por que existem tantas bandas por aí! Quem não ia querer ter um emprego desses: você toca nos melhores lugares, por ter a mulher que quiser para uma única noite de sexo (os solteiros, é claro! rs), tem patrocínio dos melhores instrumentos, se hospeda em hotéis 5 estrelas, tem assessores, roadies pra trocar a corda da sua guitarra (quem me conhece sabe que é meu sonho...rs), pode quebrar tudo que a produção do show se responsabiliza pela conta (os caras do Pantera eram os mestres nisso), ou você mesmo pode se dar esse luxo, e, por fim, pode fazer as exigências de camarim mais incríveis e exorbitantes para seu camarim!
Eu me lembro muito bem da uma parte do vídeo “One year and a half in the life of Metallica” onde Mr. James Hetfield tira o maior sarro das exigências de camarim do Axl Rose, quando sua banda excursionou com o Guns n’ Roses. Ele falou do champagne, do mel “to sing like this” e dos frangos que o Axl pedia em sua enorme lista, pra depois jogar ela no chão e pisar em cima. Acho que hoje em dia ele já percebeu que o mundo dá muitas voltas...
Eis que, às vésperas da banda tocar no Brasil, aparece na Internet a lista de exigências de camarim da atual turnê deles. Qual foi minha surpresa? A lista é tão extravagante quanto àquela mesma que Hetfield pisou em 1992! Tem tanta coisa aqui que você imagina que se eles consumirem isso antes do show, certamente morrerão de congestão estomacal! Na certa eles devem odiar comida de hotel e deixarão pra jantar (junto com toda sua família, crew, amigos e convidados) no camarim, ou eles devem enviar tudo para suas casas após o show, para que suas esposas não precisem fazer o supermercado do mês (rs)! Eu imagino o coitado do funcionário da produtora dos shows no Brasil que terá que correr atrás de tudo isso nos supermercados daqui. O cara vai precisar de um caminhão pra trazer tudo! A grande surpresa é a pouca quantidade de bebida alcoólica pedida, reflexo da reabilitação do James, certamente.
A lista completa está abaixo e fala por si. Eu tinha encontrado ela em Inglês e, posteriormente, a traduziria aqui, mas acabei achando uma tradução do colunista Roger Lerina, do jornal gaúcho Zero Hora. Só mudei algumas coisinhas na tradução dele...
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METALLICA DRESSING ROOM CATERING RIDER
(Guia de abastecimento do camarim do Metallica)


Todas os ítens a seguir devem estar no camarim aproximadamente quatro horas antes do início do show.

Os alimentos orgânicos podem ser encontrados em lojas como Whole Foods, Wild Oats ou qualquer outro bom ponto-de-venda de produtos saudáveis.

Nós sabemos que esta lista é extensa e complexa, agradecemos sua ajuda.

Bebidas

• 2 coolers contendo 25 kg de gelo limpo e consumível

Por favor, providencie as seguintes bebidas, nós as colocaremos em nosso refrigerador:

• 12 latas de refrigerante tipo cola (6 light)
• 6 latas de refrigerantes
• 6 latas de energético
• 6 latas de energético sem açúcar
• 18 garrafas de 500 ml de água mineral com gás (em garrafas plásticas, por favor)
• 2 litros de leite desnatado
• 2 litros de leite de soja não-adoçado e fortificado com vitaminas
• 12 porções de 500 ml de suco de laranja (não feito com concentrado)
• 2 litros de suco ORGÂNICO de maçã
• 12 garrafas ou latas de uma boa cerveja local
• Por favor deixe em temperatura ambiente
• 48 garrafas de 500 ml de aguá mineral (não da marca Evian, por favor)
• 9 garrafas de 1,5 litros de água mineral (não da marca Evian, por favor)
• 12 garrafas de 500 ml de Gatorade Lima Limão (também conhecido por Citrus)
• 6 garrafas de 500 ml de Gatorade Tropical (também conhecido com Red Orange ou Fruit Punch)
• 1 garrafa de 750 ml de Vodka Absolut
• 3 garrafas de um bom vinho italiano seco ou Pinot Noir francês (de 15 a 20 euros)
• 1 garrafa de um bom vinho francês seco Chardonnay (de 15 a 20 euros)

Comida

Por favor, faça todas as bandejas com porção para 8 pessoas. Espaço é importante então, por favor, faça-as pequenas.

• 1 bandeja de frios para oito pessoas incluindo presunto fatiado, salame fatiado e peito de peru fatiado (não coloque outra carne ou queijo nessa bandeja – obrigado)
• 1 bandeja com alface, tomate e cebola fatiados para sanduíche
• 1 bandeja com queijos provolone, suíço e cheddar fatiados para sanduíche
• 1 bandeja de queijos incluindo Brie, Gouda, Cheddar e um a sua escolha. Por favor, deixe-os inteiros.
• 1 bandeja de vegetais frescos com pepinos, cenouras, aipo, pimentas vermelhas, azeitonas e picles.
• 1 tigela pequena de húmus com fatias de pão integral [N.T.: húmus é uma pasta de grão-de-bico com gergelim e outros temperos, típica da cozinha mediterrânea]
• 4 iogurtes desnatados (de preferência sabor baunilha)
• 4 iogurtes gregos desnatados [N.T.: um tipo de iogurte mais espesso, similar a nata]
• 1 pote de molho picante
• 1 pote pequeno de maionese
• 1 pote pequeno de mostarda Dijon
• 1 pote de picles
• 1 tigela pequena de queijo parmesão
• 1 tablete de manteiga
• 1 tigela para 4 pessoas de salada verde (sem temperos)
• 2 sacos de ervilhas congeladas (por favor mantenha congeladas)
• 1 kg de filé mignon CRU (por favor, mantenha cru e não cozinhe – obrigado)
• 1 tigela de frutas com 4 maçãs verdes, 4 maçãs vermelhas, 4 pêras, 4 laranjas, 18 bananas, 1 manga, 1 mamão, 2 abacates, 2 pêssegos, 6 limas e 4 limões (inteiros e lavados)
• 4 porções de Blueberries (N.do R.: frutinha vermelha européia), se não for possível, por favor morangos (por favor lave e deixe na embalagem)
• 2 porções de framboesas (por favor lave e deixe na embalagem)
• 1 pão de fôrma fatiado multi-grãos e 1 pão de fôrma branco (para sanduíche) (por favor deixe na embalagem)
• 1 pacote de pães de cachorro-quente integrais (por favor deixe na embalagem)
• 1 pacote de salgadinho Tortilla Chips [Doritos] (por favor deixe no pacote – não abra)
• 2 pacotes de batas chips (por favor deixe no pacote – não abra)
• 1 pacote de petiscos (nozes e passas) (por favor deixe no pacote – não abra)
• 1 barra de chocolate suíço
• 1 garrafa squeeze com mel (N. do R.: imaginem encher um squeeze com mel! rs)
• 20 pacotes de açúcar

Comidas quentes – para antes de show (horário a ser definido no dia)

Por favor, sirva o suficiente para 8 pessoas em buffet aquecido (acredito que 3 buffets com cada item é o melhor já que espaço é importante)

Podem ser os mesmos ítens servidos para a equipe do Metallica (LOUÇAS NÃO DEVEM CONTER NENHUM ÁLCOOL).

• 1 prato de entrada de carne bovina ou suína
• 1 prato de entrada de carne de frango
• 1 prato de entrada VEGAN (nada lácteo, peixe ou carne)
• 1 pacote de cachorros-quentes de tofu (cozidos e servidos em água)
• Purê de batatas
• Vegetais (por favor, escolha entre brócolis, ervilhas, aspargos, couve-flor, milho, cenoura ou vagem)
• Espaguete ou macarrão a sua escolha (por favor, misture azeite para que fique solta)
• Molho de carne (bolonhesa)
• Molho marinara

Por favor, forneça os talheres adequados.

Utensílios e Condimentos:

• 4 toalhas de mesa
• 2 toalhas de mesa extras
• 75 copos plásticos de 500 ml
• 20 copos para café de papel (não de isopor, por favor)
• 2 rolos de papel toalha de alta qualidade
• 2 caixas de lenços (de formato cúbico se possível) (N. do R.: alguém já viu uma caixa em formado de bola?)
• 1 pacote de guardanapos
• 20 pratos em cerâmica
• 10 tigelas em cerâmica
• 20 garfos, colheres e facas (não de plástico)
• 8 taças de vinho
• 10 canecas cerâmicas para café (canecas, por favor, não copos - obrigado)
• 1 galheteiro com sal e pimenta
• 1 tábua de cortar
• 1 faca afiada
• 1 faca para queijos
• 2 abridores de garrafa
• 2 saca-rolhas
• 3 bacias para louça suja (sim precisamos de 3, por favor)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

OPINIÃO: Será o fim das revistas de Rock?

Texto publicado no blog The Hard Ways.

O pedido de demissão do redator Thiago Sarkis da revista Roadie Crew em fevereiro deste ano me deu um frio na espinha. A notícia soaria normal se não fosse uma lavação de roupa suja promovida por alguns membros remanescentes do staff da revista no orkut, após o anúncio de despedida do redator.

Cresci lendo, ou melhor, devorando todas as revistas de rock que existiam no Brasil na década de 90: Rock Brigade, Metal Head, a própria Roadie Crew (que pintou como revista mesmo só em 1998), Valhalla, Rock Press, ShowBizz e algumas outras “tentativas de revista”. Elas, por mais patético que pareça, influenciaram um adolescente de 17 anos, que não sabia que curso fazer na universidade, a escolher o Jornalismo, com a ilusão de um dia integrar o cast delas, entrevistando todos os ídolos e vendo todos os shows de graça! Aí a vida chega forte, todos os sonhos caem por terra, o adolescente acorda, desiste do sonho e, paralelo a isso, as próprias revistas de rock definham!

Pra falar a verdade, apenas três revistas me interessavam de verdade: Rock Brigade, Valhalla e Roadie Crew. A primeira que caiu foi a Valhalla, por motivos financeiros! Mesmo uma parceria com a revista gringa Rock Hard não foi suficiente pra segurar as pontas. Isso tudo depois da era da internet, onde tudo pode ser lido quase que ao vivo e as revistas perderam as oportunidades de dar “furos” e passar informações inéditas em primeira mão.

Depois acontece minha maior decepção: a Rock Brigade, não sei por que até hoje, demite, ou tem demitida, toda a sua redação (Antonio Carlos Monteiro, Fernando Souza Filho e Ricardo Franzin, praticamente meus heróis na profissão) e contrata um bando de jovens sem a mínima noção jornalismo. A qualidade da revista caiu assustadoramente e, como se não bastasse, a revista parou de circular em bancas, sendo vendida apenas pela internet. Juro que fiquei de cara um tempão por isso.

Aí tive que “engolir” a Roadie Crew, como única salvadora da pátria! Não que a revista seja ruim. Não é! Mas sempre achei os textos dela muito burocráticos e com pautas muito repetidas. Sempre que alguma banda lança um disco, a ordem da pauta pra entrevista é:

- como foi o processo de composição;
- como foi o trabalho com o produtor;
- como tem sido a recepção das músicas nos shows e as vendagens;
- quando vocês vão tocar no Brasil;
- deixe um recado para seus fãs brasileiros.

Eu juro que eles devem ter essa pauta genérica pronta pra todas as entrevistas! E meu, quem compra uma revista de rock quer, num primeiro momento, saber como pensa o seu ídolo, como ele age etc. Que se foda como foi feito o disco! Isso ele mesmo pode escrever no site da banda dele, sem contar que muitas bandas hoje em dia já fazem vídeos “making of” onde mostram tudo!

Sem contar que todas as respostas pra essa pautinha são sempre as mesmas: “esse é nosso melhor disco, o produtor soube extrair tudo de nós, os fãs têm adorados as músicas novas nos shows, as vendagens estão ótimas, pretendemos tocar em breve no Brasil e nós amamos vocês, brasileiros, e estamos doidos pra ir aí tocar, beber caipirinha e foder suas mulheres.”

Na verdade, ainda curto muito o trabalho do Antonio Carlos Monteiro, que, depois que saiu da Brigade, tem “colaborado” com a Roadie Crew. Ele, assim como seus ex-companheiros, tem a malícia, a irreverência e a inteligência para transformar qualquer entrevistinha com qualquer bandinha mixuruca em uma verdadeira aula de extração de respostas e “prendimento” do leitor! Nada na Brigade dos bons tempos era burocrático! Eles cutucavam a ferida do artista quando era preciso, sem dó, nem piedade! E perguntavam coisas que você poderia traçar um perfil do modo de pensar do entrevistado, cumprindo assim o papel da revista, jornalisticamente falando.

“Ok! Beleza! Vamos dar uma chance pra Roadie Crew, pois às vezes eles se superam e fazem entrevistas legais.” Eu pensava assim. Aí hoje, vendo a comunidade da revista no orkut me deparo com a “despedida” do redator Thiago Sarkis e com uma lavação de roupa suja no orkut. Não que o Thiago era o redator mais fodão da revista e tals. Nem é isso! Ele é ótimo, faz boas entrevistas e se supera às vezes (não chega aos pés do staff da antiga Brigade, mas dá pra levar). Mas isso mostra que tem incríveis tretas na redação da revista!

Parece que o povo tem trabalhado lá com a faca nos dentes e com a mão no pino da granada! Isso me dá a impressão que tudo pode acabar a qualquer momento! Que os caras da revista podem brigar, por dinheiro, por ego, por diferenças e, a qualquer hora, posso ficar sem nenhuma revista de rock pra ler, por mais fútil que isso pareça ao resto do mundo!

Isso me preocupa! Me chateia! Me desanima! E cá fico eu a ler cada vez mais blogs e acessar sites sobre música. Ah, mas isso, sem saber o perfil dos caras que fazem a música que eu idolatro! Seria até um possível fim dos meus ídolos na música? Como que eu vou curtir o cara se eu não sei o que ele pensa. Vou ficar só com a música mesmo? Que medo...